
O meu último livro de Poesia
Capa e ilustrações de H Mourato, prefácio de Joaquim Evónio
CorposEditora, 2009
- Podes encontrá-lo nas livrarias e no site: http://www.worldartfriends.com/
- Edit-Me
HISTÓRIAS, CONTOS E CRÓNICAS. ACONTECIDAS OU INVENTADAS. VEM COMIGO, DAR ASAS À IMAGINAÇÃO....


Sentado num ramo, o passarito via o sol subir no céu.Ensaiara o canto da manhã, comera uns tricos-tricos e meditava feliz.
Pilm!
Arrepiou-se todo o passarito novito, que já se esquecera da chuva de primavera, quando nascera.
- Que será isto?!Encolheu-se, estremeceu e abanou-se todo, aliviando a tensão.
Olhou para o céu, mas nada viu!
Plim! Plim!
- Ai que morro afogado!Gritou do cimo do ramo enxuto, céu azul, sol subindo… Espanejou-se todo, incomodado e aflito.
- Passarada doida! Bêbados de néctar até esta hora!
Refilou, apesar do silêncio:
- Seus morcegos vadios!
Plim! Plim! Hihihihi!
Ai, era demais… Agitou as asas e levantou voo… Num ápice estava longe, sentadinho e quieto. Agora, com a calma, vinha-lhe o sono.Fechou os olhitos e assim esteve até que, de novo, sentiu
Plim!
De onde estava agora, alargava-se o horizonte.
Semi-serrou os olhos e virou a cabeça em todas as direcções.Um caule subia a pique, e lá de cima, sentiu:
Plim!
Pôs a cabeça de lado, indeciso.
- Céu azul, o sol subindo… que será isto?!
Deslizou o olhar para cima, seduzido pelo mistério.
No alto, uma melena amarela agitava-se contente e, de vez em quando, salpicos saltavam dela, que ria deliciada.
- Ó tu lá de cima! Chamou, ansioso por conhecê-la e ensaiando uma cantoria ensurdecedora.
A flor de melena amarela, mirou o pequenito, emproado que nem um peru do mato, e piscou-lhe o olho.
- Falas comigo, passarito dorminhoco?
- Dorminhoco, eu?!
Ora esta! Já tomara banho, cantara e comera, estava a tentar meditar enquanto o sol subia no azul do céu… e aquela cara de lua chama-lhe dorminhoco, a ele, um passarinho diligente e cumpridor?!
- Quem és tu, ó presunçosa?- Eu?! Sou o espelho do sol na terra, não vês?
O passarito, de olhos em fenda, viu uma cara redonda com a barba mal feita e uma enorme cabeleira amarela que nem gema, recortada, abanando com toda a força.- Sou um girassol, seu tolo, onde andas que não me conheces? Toda a gente me adoraaaa… E aos meus irmãos também!
Pequenino, pequenino, o passarito suspirou… Que grande injustiça me aconteceu!
- Que resmungas aí em baixo, ó bico fino?
- Estou farto de ser molhado, sua flor orelhuda! Não sabes tomar banho sem fazer bagunça?
Hihihihi… escangalhou-se em riso a flor.
- Pois não! O meu pé não sai daqui… é a noite quem me lava e é o sol quem me enxuga.
- Sortuda!…Desavergonhada e vaidosa! Ia dizendo consigo o passarito.
Farto de conversa, voou alto, muito alto, tanto quanto conseguiu.Ficou assombrado, planando por um momento:O que via eram milhares de melenas brilhantes, desafiando o sol e aspergindo gotas de água por todo o lado.Cansado, deixou-se levar pelo vento até uma árvore, num bosque bravio, onde se aninhou num ramo e, de novo, adormeceu.
Maria Petronilho




Ela sabia-o em perigo.Urgia avisá-lo. Tímida, hesitava, a agenda tremendo nas mãos.Com os olhos cheios de lágrimas e o coração saltando do peito, tomou coragem e ligou o número do telefone móvel.Passara a ser acessório: Mesmo nas conferências e espectáculos, de quando em vez um som fulgia e logo se apagava num sussurro.Ouviu o som de chamada longa, longamente …. Depois um dedo enfadado calara o inoportuno.
Sinal monótono:- Fim!
23/11/2006
Maria Petronilho

Tempo de Escuridão







Eu não sabia brincar como as outras meninas, que só conheci aos 7 anos... as minhas brincadeiras eram fazer teatrinhos com bonecos recortados de papel, que contavam histórias.
Também inventava cantigas.
Não tendo poiso certo, não tinha hábitos, muito menos a quem imitar.
Achava esquisito que as outras meninas não soubessem ler.
Imaginas quanto elas me achavam esquisita a mim?!
Não tinha ninguém, portanto toda a gente descarregava a raiva batendo impunemente na mais pequenita, que só se safava quando adentrava por meio de penedias onde até os adultos tinham medo de entrar.
Pensava: quando chegar à 4ª classe hei-de ser grande e ninguém me há-de bater!
Pois sim!
O problema não foi ter crescido pouco, mas terem-me batido tanto... e se a pancada por fora dói, mais dói por dentro, se não se encontra razão para ser espancada a torto e a direito...
Quando tinha doze anos, por trancos e barrancos, herdei umas velhas bonecas... que alegria brincar com elas!
De trapos, vesti-as de princesas... e eu vestia trapos que os outros iam deixando... ao mesmo tempo lia Sartre, Steinbeck, Tostoi, filósofos, clássicos .... li "As Metamorfoses" de Ovídio, em francês.
Ganhei prémios na escola, onde ninguém foi.
Não conheci os meus avós.
Talvez o avô Petronilho fosse diferente, a julgar pelos livros que deixou.
As minhas avós... nunca me conheceram, nem se importaram em deixar-me ao deus-dará.
Não me escondo, nem tenho de que me envergonhar.
Se pudesse arrancava estes genes das veias!
Não conto os anos nem os sinto cá dentro; serei talvez menina eterna, que se ilude e sonha... a quem um grão desequilibra a consciência.
Deixem-me ser criança, que ainda é tempo! Em breve farei 5 anos, pois nasci de novo...
Tenho a eternidade inteirinha para envelhecer... se possível for!

O meu pai queria comprar muitas casas, tinha dois carros sómente para si (um Morris beige para atravessar diàriamente a Ponte e um Sunbean de duas cores para trazer o que os rendeiros "lhe ofereciam"
Ele chegava lá e colhia o que não lhe pertencia, o que sempre me envergonhou... eu nem um bago de uva conseguia comer, pois se pagavam renda, o que cultivavam era seu.
Naquela aldeia na Idade Média onde os meninos iam descaços na neve para a escola e passávamos os intervalos a aquecer as mãos debaixo dos braços porque réguadas em mãos encarquilhadas de frio... são como brasas vivas queimando mãozinhas tenras!
Percebes porque odeio matemática?
Ler aprende-se por intuição, mas fazer contas?!
Já no liceu equacionava os problemas, entendia-os... mas fazer as contas?!
Freud explica e Pavlov também: era por reflexo que ficava doente e cega, suava e ficava incontinente nos testes.
A única mazela que, apesar de tanto sofrimento não me afectou, foi a dificuldade de aprendizagem. Fixava tudo de ouvido, graças a Deus, porque tinha todo o serviço doméstico a meu cargo... tempo para estudar era um luxo!
Ter folhas de ponto também:
- 3 tostões outra vez?!Vai ganhá-los para a estrada!
Só depois de casada, quando fui visitar os meus sogros e vi os estranhos pic-niques à beira da estrada, o meu ex-marido me explicou que pic-niques eram... e o que o meu pai dizia fez enfim sentido.
Graças a Deus: o que a gente ignora não nos magoa.
Maria Petronilho

Ah, que saudades da flor do rosmaninho, que sempre adorei!
Desde pequenina, onde hovesse rosmaninho em flor era como se da terra um íman irrestível me chamasse
... Lembro-me do Alvarinhal, onde o chão estava pejado dele...
E havia um rio.
Mas colocaram uma bomba, destruíram tudo: rio, peixes... para regarem as hortas, embora houvesse um poço, ladeado de roseiras... o Soares tinha as mais lindas rosas, que perfumavam tudo em redor!
No rio, dizem que o avô Petronilho pescava com chumbo... um horror!
E havia "a toca dos coelhos"!
Se a malina matasse todos os coelhos , ali nunca faltavam: Viviam sob rochas enormes, com buracos.
O meu avô, dizem, tinha um furão amestrado.
Devia ser levado da breca!
Gostava era de sair para o campo, pescar, caçar, petiscava ouriços cacheiros... mandava esfolar e grelhar as orelhas dos bichos que se matavam em casa, deixando a carne de lado... gostava de vinho e de se escapulir para Espanha, onde passava mais tempo que em Portugal.
Minha avó não era bonita (nem feia), mas não tinha os traços finos da irmã nem da filha.
Meu avô devia pôr as espanholitas doidas! E vice-versa...
Aprendi a cantar malageñas... também com as pessoas fugidas à Guerra Civil.
A Espanhola atravessou o rio Ponsul com os filhos atados à cintura, o mais pequeno à cabeça... Perdeu-os todos, não sei se salvou o bebé, diziam que sim e que não... nunca lhe vi filho algum.
Trajou para sempre de preto, a sua horta era um lindo primor, ganhava a todas!
Nunca aprendeu uma só palavra de português.
Da fonte do Louredo, desde tempos de antanho, as minhas avós distribuiam água aos vizinhos, que corria límpida e fria em regueiras escavadas no granito.
Foi a Espanhola quem me furou as orelhas.
Baptizaram-me em Monsanto.
Nada herdei, mas ainda tenho o meu magnífico fato de baptismo.
Olha-me vestida com ele, em cima da Burra Velha! Que amazona, hein?!
Tudo deveria parecer cravos e rosas nesse tempo... depois... pobrezinha da minha mãe-menina!
Tenho lembranças tão nítidas, dos lugares, das pessoas, do que se dizia.... eu tudo escutava, encantada... diziam que o avô Petronilho gostava muito de mim.
Tinha tanta pena de que tivesse morrido!
Morreu de cancro no intestino, quando eu tinha um ano.
Diziam que tinha sido operado 7 vezes e que lhe substuituíram uma parte do intestino por um tubo de borracaha... mas de nada adiantou!
Seria verdade, não seria?!
Não era a mim que contavam, que eu "nem existia"... contava-se e eu ouvia.
Gostava de poder encadear estas coisas para escrevê-las, mas são pedacinhos colados, vagos, vagos... ao mesmo tempo alegres e tristes.
Todos precisamos ter uma história de nós mesmos, ter pais, ter avós... eu não tinha!
Então estes ditos preenchiam-me: era como se os tivesse... e imaginava o meu avô, no seu ar marcial, de bigodinho...bonito e bon vivant, incompreendido, deliciando-se a ler poesia, romances, teatro... a herança mais bela que... sei lá como, foi sumindo!
Sumiu tudo, tudo se esvaíu como fumo: a casa de lavoura estava completamente vazia...
Fui lá cumprir o dever de internar minha avó no Lar, onde era muito bem tratada...
Mas meu pai tirou-lhe a chave, colocou todos os seus petences no terreiro e ateou-lhes fogo... a pobrezinha ia a casa... e viu as suas coisas ainda a arder.
Foi ter com os meus compadres, a chorar.
Da minha pobreza, eu enviava vales para pagar os remédios, enviava roupa...
Vivíamos nesse tempo do que vendiam os ciganos, na feira onde hoje está o Fórum: trazia quilos e quilos de fruta ("dois quilos, cento e cinquenta!") ... minha filha nesse tempo era alimentada a leite e maçãs.
Daí, as hérnias discais!
Talvez daí, o horror dela só de pensar em pobreza, agora que se vê rica.
Coisas da vida, demasiadas coisas... !
... Vês a fiada de lembranças que abriste no cofre selado da minha alma?!
Selado! Há coisas em que dói muito pensar.
Maria Petronilho

Maria Petronilho
(replicando com carinho ao artigo de Raymundo Silveira "Digam que não estou")
Lisboa, 18/9/2005

... Que não te falei de mim!....
Prefiro chegar, Assim, sorrateira, enquanto dormes.
Fico a olhar-te, observando o teu sossego.
Aproximo-me muito devagarinho, levanto a ponta do lençol.
Muito, muito ao de leve, toco os pêlos da tua barba. Beijo-te à flor do rosto, tomando cuidado para não te tocar os lábios.
Vagueia uma leve tristeza.
Algo na nossa amizade esfria e empalidece.
Sou movida adiante, à força de porquês.
Por defeito, começo por analisar os meus gestos, percorrendo um por um todos os momentos, na ordem inversa dos acontecimentos.
Não encontro culpas.
Dentro do silêncio, algo me escapa. Mas está hermeticamente fechado como uma pérola, um ovo. Teria de quebrá-los para ver o que têm dentro.
Não são meus, porém. Deposito-os na estante dos segredos.
Talvez se abram. Talvez amadureçam. Talvez despertem. Talvez se adensem.
Estão lá, eu estou aqui, de alma desnuda.
Já tenho direito a seguir todas as rotas da rosa-dos-ventos, sem dar explicações.
Já tenho audácia para seguir os caminhos do coração.
E fi-lo. Foi um salto no abismo: de mim para ti.
Enfrentei-me com o hábito que visto por dentro... e é tão difícil despi-lo!
Era feliz e sou feliz.
Se também assim te sentires, a fasquia com que meço a altura dos meus saltos no desconhecido subirá mais alto.
Sei que a minha jornada não é comum.
Desde o começo. Assim, parecer-te-ão inusitadas muitas coisas, comummente achadas entre as pessoas que conheces, como a elas pareceriam inusitados os meus caminhos.
Falo-te sem sombra alguma.
Com a tal sinceridade “excessiva” que é a minha marca...
Penumbra... a única penumbra bela é a que recobre os picos da tua ilha.... o resto é sombra.
Ofusca a clareza.
Da clareza flui a amizade, a poesia, o pensamento que discorre e não tem como avançar no escuro.
Amo o sol, o céu, o mar!
Amo ser brisa e onda, não cais nem âncora.
“Gostas de ser tratado como um Paxá”... a minha vontade foi de te embalar no colo.
Mas não ousei, fiz-me ainda mais pequena, encolhida no meu canto.
Para não te perturbar o sossego.
Sem peias te falei, o mesmo esperava de ti.
Sem mais... peias.
Qualquer de nós tem imaginação para fazermos de David e Rainha de Sabá...
No conto falo do encanto.
Talvez se a realidade tivesse imitado a ficção... talvez o esperasses, desejasses. E seria bom.
Faltou-me um levíssimo impulso.
Acaso te apercebeste?
Acalanto sonhos de voo, sim!
Gostava de deslizar pelo ar, suspensa de um balão. Imagino que sobrevoo o oito infinitamente azul da Lagoa das Sete Cidades.
Gostava de saltar de pára-quedas, com uns óculos que me permitissem manter os olhos abertos, como quando mergulhava entre as algas, em Sesimbra.
Ou nadava sobre miríades de peixes, finos e prateados como agulhas, reluzindo sob o meu corpo suspenso, no sol que mergulhava, no mar que me sustinha.
Eu sei que gosto de um homem quando o admiro.
“a ocasião faz o ladrão”... se assim é, que o ladrão seja tão competente que me arrebate!
Agora poiso de novo os lábios sobre o teu rosto, atenta às distâncias.
Deixo cair de novo a ponta do sono sobre as pálpebras que encerram o fulgor dos teus olhos adormecidos.
Cubro-te de bênçãos e, no mesmo silêncio em que cheguei, parto. Ficando sempre contigo.
Maria Petronilho


EU TENHO DE DEUS UMA IDEIA: UM CAMINHO PARA A PERFEIÇÃO, PARA A PAZ, PARA O AMOR ENTRE TODAS AS COISAS: ENTRE OS HOMENS E TUDO QUANTO EXISTE: POR ISSO TODO O SOFRIMENTO ME DÓI TANTO...
TODO O SOFRIMENTO ME PERTENCE, PORQUE EU FAÇO PARTE DO TODO E O TODO FAZ PARTE DE MIM: O TODO É DEUS!